Gestão de Carreira: A prática sem “floreados”
- 9 de fev. de 2019
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Há poucos dias publiquei um post sobre gestão de carreira, bastante comentado. Houve um comentário que “mexeu” comigo: “que conselhos práticos nos pode dar, sem “floreados””?
Aquilo ficou-me na cabeça e durante dias pensei: mas eu lá sou mulher de floreados? As minhas partilhas, as minhas reflexões, baseiam-se na prática, nunca nos livros ou em teorias vazias, mas na minha prática. Ou porque já vivi na primeira pessoa, ou observei alguém que conheço, ou que acompanho.
Eu, que por vezes, devia ser até menos prática, mas não posso. Sou mulher e mãe, numa cidade que não me deixa parar. A minha responsabilidade não me permite ter ilusões, de todo!
Na minha formação de coach fui chamada de “coach pragmática”, aliás, por ser tão pragmática, o termo “coach” aparece poucas vezes nas minhas publicações, pois não me identifico com a “banalização” que foi dada ao termo.
Mas vamos voltar ao tal post. Contava a história de alguém que estava à procura de um novo desafio, mas sem sucesso, pois a estratégia era simplesmente enviar Cv´s em massa e nada acontecia.
Eu sugeri, que devia fazer algo diferente, que devia primeiramente, de se conhecer e reinventar-se. Floreado?
Acredito que para quem está no mercado à procura de um novo desafio, para quem está insatisfeito com a sua atual situação, estas sugestões pareçam ilusórias, sem substância. Conversa “da treta” de quem nunca passou por dificuldades. Não podiam estar mais longe da verdade.
Nos últimos 5 anos já fiquei duas vezes sem emprego. Mas a primeira vez, foi avassaladora, pois não tinha feito o “processo”.
Lembro-me como se fosse hoje, no dia em que me comunicaram, chorei horas a fio. O que ia fazer? sozinha e com uma filha dependente de mim. Naquele dia permiti-me apenas chorar..
No dia seguinte acordei e fui correr, só pensava no que iria fazer dali para a frente. A única vez que tinha estado desempregada tinha sido por vontade própria, mas em pouco mais de 2 meses estava no ativo. Os tempos eram outros!
Agora era diferente, estávamos em plena crise, e agora eu tinha uma criança por minha conta.
A meio da corrida e num trilho do pinhal de Leiria, decidi: eu vou ver isto como uma oportunidade e não como um problema.
O meu processo tinha começado! Comprei vários livros, fiz várias pesquisas na internet. Nunca tinha questionado: o que me apaixonava?, quem era?, o que queria?. E decidi que aquele, era o momento.
Foram meses intensos de imersão. Mas com uma enorme pressão externa, ninguém entendia a minha tranquilidade (posso aqui confidenciar que até hoje não sei como me consegui manter tão tranquila).
Mas, enquanto me encontrava, não podia parar.
Paralelamente a este autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, em termos práticos o que fiz?
Orçamento Pessoal - O meu primeiro passo foi fazer o meu orçamento pessoal, os meus rendimentos iam ter uma redução em cerca de 35%, portanto tinha que saber onde “cortar”
Part-time - Através de contactos pessoais, consegui ir fazendo uns trabalhos em part-time (muito bem pagos por sinal), como visual merchandiser, algo completamente fora da minha área. Foi uma experiência bastante interessante, que me trouxe alguns conhecimentos ao nível do marketing. Isto permitiu-me relaxar quanto à parte financeira. Mas tive de deixar de lado qualquer tipo de preconceito. Não foi difícil, sou extremamente prática e se era necessário tinha de avançar, e a verdade, é que me permitia gerir o meu tempo e a minha agenda e isso era muito importante naquela fase.
Voluntariado - Através das minhas pesquisas, consegui encontrar um projeto de voluntariado na área da empregabilidade o GEPE (grupos de entreajuda na procura de emprego). Tratei de tudo e fui a Animadora do Gepe de Leiria. Ajudei imensas pessoas, partilhei todo o meu conhecimento, enquanto recrutadora e conhecedora da realidade das empresas. Foi uma experiência determinante no meu percurso. Ajudou-me a encontrar o meu propósito de vida. Com esta experiência percebi, que a vida era muito mais que trabalhar e pagar contas. Muito mais do que EU. Aprendi a conjugar o verbo na terceira pessoa.
Escrever conteúdo - Também através das minhas pesquisas conheci um projeto editorial aqui em Lisboa. Marquei um encontro com a responsável (ainda em Leiria) e fui convidada para começar a escrever textos relacionados com a gestão de carreira e gestão de recursos humanos. Lembro-me que fiquei em pânico. Eu escrever? mas, saindo totalmente da área de conforto, escrevi o primeiro artigo. Adorei tanto, que até hoje escrevo! Agora no meu blog e no LinkedIn. Foi uma paixão descoberta!
Hobbies - Na altura fazia os acessórios de cabelo para a minha filha manualmente. E alguém me disse: tens tanto jeito, porque não vendes? E assim fiz, aprendi um pouco mais de técnica e comecei a vender. Mais um rendimento extra que ajudava nas despesas.
Mindfulness - Sempre fui muito ansiosa, e na situação em que estava, parar os pensamentos, era uma tarefa quase impossível. Quando dava por mim o “filme mental” era aterrorizador e o veredito seria que, em poucos meses seria uma mendiga. Tinha de arranjar algo que me ajudasse a parar, e a não escalar para o futuro. Encontrei o mindfulness. Todos os dias meditava e foram esses momentos que me permitiram ter sanidade mental, para lidar com o processo
Tinha passado um ano, e eu tinha conhecido tanta gente, tinha evoluído tanto. Ironicamente, ter ficado desempregada, tinha sido o melhor que me tinha acontecido. Mas havia um problema, na minha zona geográfica não havia trabalho na área que queria: Gestão de Pessoas, numa vertente mais estratégica e menos administrativa. Sabia que em breve tinha de tomar uma decisão, e emigrar era já uma ideia que começava a pairar na minha mente.
Tentava manter a calma. Aquilo que na altura dizia para mim, é ainda hoje, o meu mantra e aquilo que digo, sempre, às “minhas pessoas”: se fizeres hoje o que tens de fazer, algo vai acontecer, confia!
E eu estava a fazer tanto, escrevia, fazia voluntariado, networking, tinha a certeza de que iria acontecer, e a verdade é que, aconteceu!
Convidaram-me para um novo projeto - fruto de todo o trabalho que estava a desenvolver - fiquei super entusiasmada, mas, tinha de tomar uma decisão difícil: largar a minha casa, a minha família e partir com a minha filha para Lisboa. E assim fiz, parti sem uma lágrima derramar! Com a certeza que estava a fazer o melhor para mim, e para ela.
Agora em Lisboa, continuo a lutar todos os dias, rumo ao meu objetivo, ainda não estou onde quero, mas sei que, todos os dias fico mais perto. Porquê?
Porque faço todos os dias, o que tenho de fazer.
Porque aprendi que tenho de encontrar soluções e não me posso agarrar aos problemas, não tenho tempo para me lamentar.
Quero muito ser um exemplo para a minha filha, que ela me veja como uma vencedora.
E é isto que partilho com as “minhas pessoas”, o meu processo, a metodologia que desenvolvi comigo, com a minha experiência, sem qualquer tipo de floreado e com muita verdade.
De uma coisa sei, nada, jamais será como era antes.Não procuro estabilidade, não procuro segurança, porque isso não existe mais! Todos os dias luto, no sentido de aprender a lidar com este mundo VUCA.
E são estes os conselhos práticos que lhe posso dar. Não acredite em fórmulas mágicas, a vida não é fácil, é necessário que esteja preparado para se esforçar, sair da zona de conforto, tomar decisões difíceis.
Encontre a SUA fórmula da felicidade.
Faz sentido para si?
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